terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pastor Claúdio (2018)



Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Abrindo a Mostra Competitiva de Longas-Metragens, Pastor Cláudio relata, por meio de entrevista, a história do ex-chefe de Polícia Civil, agora pastor, Cláudio Guerra. Psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, Eduardo Passos levanta questões sobre o papel de Guerra durante a ditadura militar, precisamente entre os anos 1964 e 1967. O documentário, dirigido e roteirizado por Beth Formaggini, causa um certo desconforto mediante a tudo o que é relatado. Talvez não pelo que é falado, mas pela naturalidade como isso é feito.

Com grande experiência na área documental, Beth Formaggini explora essa naturalidade para expor o horror que foi a ditadura militar no Brasil. Responsável por mortes, “desaparecimentos” e ocultação de corpos, o agora Pastor Cláudio relata suas funções na época, dizendo que não tem problemas em descrever o que fez enquanto outra pessoa. Tudo é relatado com detalhes, com espaço até para a simulação de um dos assassinatos que, segundo Cláudio, foi um ato de misericórdia, livrando Nestor Veras das dores que sentia após tortura.

Embora tudo o que Guerra fez tenha sido mediante a ordens de seu superior, existia uma certa vaidade em torno disso. Durante a entrevista, Cláudio alega que gostava do poder que sua posição lhe garantia, mostrando essa como uma de suas principais motivações. Além disso recebia de “amigos” e associações privadas, valores em dinheiro e bens materiais.

Homenagens e shows. A primeira noite do Festival de Cinema de Vitória também homenageou o realizador capixaba Cláudio Tovar. Chegando a quase 30 anos de carreira, com trabalhos que permeiam cinema, teatro e TV, Tovar recebeu o Troféu Vitória por sua contribuição ao meio audiovisual da cidade e do Brasil. Logo após a homenagem, foram exibidos cinco curtas que integram a 7ª Mostra Foco Capixaba. O curtadoc Rio das Lágrimas Secas, de Saskia Sá, chama nossa atenção para as perdas sofridas por mulheres que estão no caminho da destruição provocada pelo rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco.

Fechando a noite do Festival de Cinema de Vitória, Chico Chico e João Mantuano levaram mais animação ao Lounge do evento. Em uma apresentação que reuniu músicas dos dois artistas e alguns covers nacionais e internacionais.

Arábia (2017)


Esse filme é uma desconstrução. Com roteiro e direção de João Dumans e Affonso Uchôa, Arábia desconstrói seu personagem principal para nos mostrar uma realidade comum, embora triste, muito bonita de se ver.

O filme conta a história de Cristiano (Aristides de Sousa, que ja havia trabalhado com Uchôa em 'A Vizinhança do Tigre'). O primeiro choque com a realidade vem quando vemos que a escolha errada do personagem acontece não por opção, mas por falta dela. Então Cristiano se torna aquele ser comum, substituível. Com a ficha suja, tudo o que ele sabe é que ser preso novamente não é uma opção. Então trabalha e é explorado em diversos lugares do interior de Minas Gerais.

A jornada é narrada por Cristiano por meio de um caderno no qual estava escrevendo sua história. Entre erros e acertos ele segue sua jornada do herói, mostrando o quanto pode ser difícil em um país onde o trabalhador é normalmente explorado, buscar uma vida melhor. Os cenários de uma Minas interiorana são facilmente comparados com as regiões sertanejas do nordeste brasileiro, mostrando que essa busca por algo melhor e a exploração enfrentada pelos trabalhadores não é algo regional, mas sim uma coisa impregnada no país.

É interessante ver o momento em que Cristiano se indaga sobre sua função social, levantando a questão de quem é o trabalhador e seu papel na sociedade. Se um dia, quando não puder mais exercer seu trabalho, vai ser reconhecido ou esquecido.

Dumans e Uchôa vão além de um filme convencional e apresentam uma história bem amarrada, que pode ser encontrada em muitos cantos do Brasil.