quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

“O cinema é liberdade”. É com essas palavras que Neville D’Almeida, um dos grandes diretores do cinema brasileiro, recebe o Troféu Vitória na terceira noite do Festival. Para celebrar os 50 anos de cinema, Mario Abbade monta o documentário Neville D'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos. Imagens raras e entrevistas com atores consagrados narram a trajetória desse sujeito tão polêmico no cinema brasileiro.

Neville D’Almeida é o diretor mais censurado de todos. Ele mesmo faz questão de deixar isso claro. Houve muitas brigas no meio audiovisual nos anos 1970, isso porque a censura marcava em cima. Muitos filmes não chegavam nem a ser exibidos. Os que conseguiam estavam cheios de cortes. Neville enfrentou isso durante toda sua carreira, já que levava  pornochanchada a níveis que a dita “família brasileira” não poderia suportar. Recebeu o título de “Maldito”, e seus filmes foram catalogados como algo que não o agrada: cinema marginal.

O documentário de Mario Abbade mostra esse processo, como o próprio título diz, Da Beleza e do Caos. Pode parecer que juntar entrevistas – uma fala aqui, outra ali, algumas cenas de filmes – é um trabalho fácil de se fazer. Mas notamos que Mario Abbade não buscou essa simplicidade. Algumas entrevistas com Neville são raras, mesmo os que acompanham o cinema brasileiro podem não ter visto muitas delas. Cenas de gravação e em lugares diversos que talvez nunca tenham sido exibidas na TV. Filmes censurados, hoje mostrados com naturalidade, sem censura, por meio do documentário. O trabalho de Abbade é ótimo e importante. Ver essa figura que mostrou ser possível trabalhar com o que quer e, mesmo diante de dificuldades, produzir algo que mude a visão de tudo o que temos sobre o cinema chamado por muitos de marginal, é algo necessário para os novos realizadores que estão procurando seu espaço.

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos vai arrancar risadas, até gargalhadas, de muitos espectadores. Enquanto outros ficarão incrédulos tamanha sua ousadia. O que antes era necessário para uma boa pornochanchada, hoje pode ser visto como assédio, mas sem dúvida Neville mostrou em seus filmes o que era o Brasil. Mostrou o que outros não ousavam mostrar. Por isso foi censurado, tachado e catalogado. Mas o fato é que Neville D’Almeida dirigiu 14 filmes, atuou em uma dezena, e ainda está na ativa, criando, produzindo a mercê de sua liberdade. Porque, mais uma vez, “cinema é liberdade”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Mata Negra (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

A sala estava lotada quando A Mata Negra começou a ser exibido. Com todas as cadeiras ocupadas e algumas pessoas nos corredores. Logo no primeiro momento, uma espécie de introdução do que estava por vir, o filme do diretor capixaba Rodrigo Aragão arranca aplausos dos espectadores.

O longa conta a jornada de Clara (Carol Aragão, filha de Rodrigo), uma jovem que caminha da inocência para a violência por meio da magia negra. Quando criança, ela fora encontrada na floresta por Pai Pedro (Markus Konká), que acabou criando a menina. Em determinado dia, quando Pai Pedro sente-se fraco para ir à feira, ela vai em seu lugar. A partir disso, ela começa um romance com um dos feirantes. Esse romance interrompido por um suposto roubo, que motiva Clara a apelar para a magia negra presente no livro, mudando a vida dela, de seu amado e de todos os outros que estão ao redor.

A Mata Negra é o quinto longa de Rodrigo Aragão. É possível encontrar relações entre seus filmes. Suas inspirações vêm de obras como Senhor dos Anéis, assim podemos montar um mapa da região onde suas produções se passam e fazer algumas interações entre eles. Em um debate com a produtora Mayra Alarcón – esposa de Rodrigo e que também atuou no longa – ela revelou que “esse filme estava na cabeça há muito tempo e ele foi se surgindo a partir das outras produções”. Outra relação entre os filmes é o Livro Perdido de Cipriano, que aparece nos dois longas anteriores, Mar Negro e As Fábulas Negras.

A qualidade de A Mata Negra é inegável. Algumas vezes buscando referências em filmes mais trashes do gênero, deixando de lado os clichês criados pela indústria e trazendo algo novo e diferente para o cinema nacional. Os efeitos especiais também chamam a atenção do espectador. Segundo Alarcón, “o terror surge como uma forma de viajar para um universo fora da nossa realidade”, mas como fazer isso no Brasil, onde o gênero não é bem explorado? “O Rodrigo sempre gostou de efeitos especiais e para fazer o que gostava ele precisou começar a fazer os próprios filmes”, conclui Mayra Alarcón.

A Mata Negra se desenvolve através desse folclore criado por Rodrigo Aragão e, embora o caminho leve a protagonista aos horrores da magia negra, podemos ver um certo otimismo em seu papel. O objetivo que muda de tempos em tempos, quando tenta salvar a vida de algum personagem que aparece em seu caminho, ou reviver seu amado. Mas o desfecho mostra que as coisas no universo Negro criado pelo diretor pode ser mais complexo do que imaginamos e essa ideia já está em fase de criação, como afirmou Mayra Alarcón, e se chamará Terra Negra, dando fim a saga do Livro Perdido de Cipriano.