segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O Vento Nos Levará (Bad ma ra khahad bord, 1999)


De certo, Abbas Kiarostami é um diretor singular. Mas aqueles que acompanham seu trabalho já estão preparados para o sossego e as repetições de cena. É assim em todos os seus trabalhos, porém isso não nos leva a monotonia e sim a uma reflexão sobre a jornada humana, com roteiros que trazem um aspecto documental, mesmo quando não é. O Vento Nos Levará mostra a jornada de um protagonista que se diz engenheiro, mas que em momento algum se mostra ser. Fica o mistério, que vamos descobrindo aos poucos, mas sem nenhuma afirmação se é isso ou aquilo.

O motivo da chegada do engenheiro e sua equipe a uma vila no interior do Irã é um segredo, o que dizem é que estão a procura de um tesouro. Mas suas atividades se resumem a coisas comuns, como a busca por um pouco de leite e a correria para chegar em um ponto mais alto e ter sinal de telefone. Isso nos dá tempo de aprender um pouco sobre a cultura local e ver um ensaio sobre vida e morte, a partida e a chegada de ambas. Enquanto temos um senhora que está em seus últimos dias, temos a mulher grávida que dá a luz a seu filho e no dia seguinte já está de volta ao trabalho. 

A vida e a morte estão em constante movimento enquanto a história se desenrola. E a omissão do que é procurado transforma o protagonista. Vemos em muitos dos personagens a vontade de ajudar, mas percebemos que não é de toda bondade, mas como uma aposta de que aquilo os beneficiária de uma maneira ou de outra. É tudo uma questão cultural que talvez fuja do nosso entendimento até aquele momento, mas que agrega ao vermos que se trata de uma região onde a cultura é só o que permanece de geração a geração.

De fato é tudo muito misterioso. Talvez o tesouro que Kiarostami procura em seu filme são os mistérios da vida e da morte. Isso em um cenário árido, com casas muito próximas de um vilarejo pequeno, onde qualquer coisa se torna logo conhecida. O engenheiro chega como visitante de todos e ali fica, em busca de seu tesouro. E entre a vida e a morte de muitos que o cercam, o final lhe rende algumas fotografias do luto da senhora que certa hora parecia que não morreria, e talvez, mas sem muita certeza, seria essa a sua busca.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Synonymes (2019)


Nos últimos anos, foram inúmeros os casos onde pessoas morreram de frio. Vemos o poder do clima gelado da França quando Yoav (Tom Mercier) corre pelado por um apartamento sem nenhuma mobília. Recém chegado ao país, o imigrante palestino tem todas as suas roupas furtadas enquanto tomava banho. Desesperado, corre pelos corredores do prédio, no começo em busca de seus bens roubados, em seguida, a procura de alguém que o possa ajudar. Sem ajuda, volta a banheira outrora quente e, por fim, se deixa congelar. 

Podemos dizer que Synonymes é um filme ambicioso, mas um ótimo trabalho do diretor Nadav Lapid. Até ali, nada sabemos sobre Yoav. De onde veio e os motivos permanecem ocultos, nos instigando a esperar o fim dessa história. História que não seria possível seu um vizinho caridoso e sua namorada (interpretados por Quentin Dolmaire e Louise Chevillotte) não o resgatasse da banheira congelante. E é através da história contada pelo próprio Yoav que descobrimos suas origens e motivações. Ex-soldado do exército palestino, Yoav deseja mudar de vida, tendo como amigo um dicionário de hebraico-francês. Mas sua jornada na França não promete ser fácil e desde início ele passa por situações humilhantes.

O filme de Lapid é uma obra singular. Montado de uma forma que a história do protagonista não siga nenhuma ordem cronológica, ele segue uma.narrativa imagética. Com cenas soltas e algumas em uma filmagem mais "suja" nos deixa mais imersos na vida de Yoav. O que aumenta essa sensação é a trilha sonora, principalmente em momentos de maior tensão. Yoav foge de seu país para esquecer a guerra, acaba adquirindo um patriotismo francês que, vemos em diversas cenas, nem mesmo os originários ostentam. Isso é visto em suas aulas para virar cidadão francês, quando é indicado para cantar o hino, vemos uma euforia que está presente nele, mas não em personagens como Émile e Caroline. Ainda no decorrer dos mais de 120 minutos, vemos que as questões extremistas e religiosas estão presentes mesmo em outra país, uma parte por conta de organizações criminosas francesas, que pregam o preconceito a estrangeiros; outra parte do conta de imigrantes palestinos, que lutam contra essa primeira. 

Dá para entender porque Synonymes levou Berlim em 2019. O filme de Nadav Lapid mostra uma certa beleza marginal, que permeia entre imagens que parecem amadoras à cenas longas e belas. Se em alguns momentos o roteiro segue um ar literário, em outros momentos exprime o ódio e desespero de um personagem que deseja fazer parte de um sociedade que o rejeita, como uma forma de fugir dos próprios fantasmas. Além de sua beleza estética e singular, Synonymes se mostra necessário em um momento em que o mundo briga por uma maior adequação da visão do Homem.